abril 30, 2012

abril 29, 2012

abril 26, 2012


O RIO DA POSSE Que somos todos diferentes, é um axioma da nossa naturalidade. Só nos parecemos de longe, na proporção, portanto, em que não somos nós. A vida é, por isso, para os indefinidos; só podem conviver os que nunca se definem, e são, um e outro, ninguéns. Cada um de nós é dois, e quando duas pessoas se encontram, se aproximam, se ligam, é raro que as quatro possam estar de acordo. O homem que sonha em cada homem que age, se tantas vezes se malquista com o homem que age, como não se malquistará com o homem que age e o homem que sonha no Outro. Somos forças porque somos vidas. Cada um de nós tende para si próprio com escala pelos outros. Se temos por nós mesmos o respeito de nos acharmos interessantes, (...) Toda a aproximação é um conflito. O outro é sempre o obstáculo para quem procura. Só quem não procura é feliz; porque só quem não busca encontra, visto que quem não procura já tem, e já ter, seja o que for, é ser feliz (como não pensar é a parte melhor, de ser rico). Olho para ti, dentro de mim, noiva suposta, e já nos desavimos antes de existires. O meu hábito de sonhar claro dá-me uma noção justa da realidade. Quem sonha demais precisa de dar realidade ao sonho. Quem dá realidade ao sonho tem que dar ao sonho o equilíbrio da realidade. Quem dá ao sonho o equilíbrio da realidade, sofre da realidade de sonhar tanto como da realidade da vida (e do irreal do sonho com o de sentir a vida irreal). Estou-te esperando, em devaneio, no nosso quarto com duas portas, e sonho-te vindo e no meu sonho entras até mim pela porta da direita; se, quando entras, entras pela porta da esquerda, há já uma diferença entre ti e o meu sonho. Toda a tragédia humana está neste pequeno exemplo de como aqueles com quem pensamos nunca são aqueles em quem pensamos. O amor perde identidade na diferença, o que é impossível já na lógica, quanto mais no mundo. O amor quer possuir, quer tornar seu o que tem de ficar fora para ele saber que só torna seu se não é. Amar é entregar-se. Quanto maior a entrega, maior o amor. Mas a entrega total entrega também a consciência do outro. O amor maior é por isso a morte, ou o esquecimento, ou a renúncia — os amores todos que são os absurdiandos do amor. No terraço antigo do palácio, alçado sobre o mar, meditaremos em silêncio a diferença entre nós. Eu era príncipe e tu princesa, no terraço à beira do mar. O nosso amor nascera do nosso encontro, como a beleza se criou do encontro da Lua com as águas. O amor quer a posse, mas não sabe o que é a posse. Se eu não sou meu, como serei teu, ou tu minha? Se não possuo o meu próprio ser, como possuirei um ser alheio? Se sou já diferente daquele de quem sou idêntico, como serei idêntico daquele de quem sou diferente. O amor é um misticismo que quer praticar-se, uma impossibilidade que só é sonhada como devendo ser realizada. Metafísico. Mas toda a vida é uma metafísica às escuras, com um rumor de deuses e o desconhecimento da rota como única via. A pior astúcia comigo da minha decadência é o meu amor à saúde e à claridade. Achei sempre que um corpo belo e o ritmo feliz de um andar jovem tinham mais competência no mundo que todos os sonhos que há em mim. E com uma alegria da velhice pelo espírito que sigo às vezes — sem inveja nem desejo — os pares casuais que a tarde junta e caminham braço com braço para a consciência inconsciente da juventude. Gozo-os como gozo uma verdade, sem que pense se me diz ou não respeito. Se os comparo a mim, continuo gozando-os, mas como quem goza uma verdade que o fere, juntando à dor da ferida a consciência de ter compreendido os deuses. Sou o contrário dos espiritualistas simbolistas, para quem todo o ser, e todo o acontecimento, é a sombra de uma realidade de que é a sombra apenas. Cada coisa, para mim, é, em vez de um ponto de chegada, um ponto de partida. Para o ocultista tudo acaba em tudo; tudo começa em tudo para mim. Procedo, como eles, por analogia e sugestão, mas o jardim pequeno que lhes sugere a ordem e a beleza da alma, a mim não lembra mais que o jardim maior onde possa ser, longe dos homens, feliz a vida que o não pode ser. Cada coisa sugere-me não a realidade de que é a sombra, mas a realidade para que é o caminho. O jardim da Estrela, à tarde, é para mim a sugestão de um parque antigo, nos séculos antes do descontentamento da alma. s.d. Livro do Desassossego por Bernardo Soares.

abril 24, 2012

Esperança

Sejamos felizes, e grande parte da palavra felicidade é a gratidão, porque a gratidão lembra que há sempre motivos e bastantes para sorrir.

abril 23, 2012

CÂNTICO DO IRMÃO SOL


Louvado seja Deus na Natureza, Mãe gloriosa e bela da Beleza, E com todas as suas criaturas: Pelo irmão senhor Sol, o mais bondoso E glorioso irmão pelas alturas, O verdadeiro, o belo, que alumia Criando a pura glória – a luz do dia! Louvado seja p'las irmãs Estrelas, Pela irmã Lua que derrama o luar, Belas, claras irmãs silenciosas E luminosas, e suspensas no ar. Louvado seja p'la irmã Nuvem que há-de Dar-nos a fina chuva que consola; P'lo Céu azul e pela Tempestade; P'lo irmão Vento, que rebrame e rola. Louvado seja pela preciosa, Bondosa água, irmã útil e bela, Que brota humilde, é casta e se oferece A todo o que apetece o gosto dela. Louvado seja pela maravilha Que rebrilha no Lume, o irmão ardente, Tão forte, que amanhece a noite escura, E tão amável, que alumia a gente. Louvado seja pelos seus amores, Pela irmã madre Terra e seus primores, Que nos ampara e oferta seus produtos, Árvores, frutos, ervas, pão e flores. Louvado seja pelos que passaram Os tormentos do mundo dolorosos, E, contentes, sorrindo, perdoaram; Pela alegria dos que trabalharam, Pela morte serena dos bondosos. Louvado seja Deus na mãe querida, A natureza, que fez bela e forte: Louvado seja pela irmã Vida, Louvado seja pela irmã morte.

abril 20, 2012

A areia da praia foge-me das mãos não me pertence, não é minha a areia da praia nem a água do mar Tudo o que toco não é meu não me pertence, nada se possuí Mas tudo me possui, a areia, a água, o tudo e o nada sem ser a alguém é pertencer ao que apenas É e ser nada na simplicidade ruidosa das ondas Existir somente o momento meditativo e perpétuo da areia do mar que nada opina ou reclama ser seca pelo sol e humedecida pelo mar é o mundo que nos transcende e não o contrário quero fundir-me na matéria universal ser parte da areia, do mar da erva e das árvores ancestrais das luz cósmica e solar ser um castelo de areia e a água para derrubar alimentar o ciclo da vida; meditar por milénios brilhar pelas galáxias, ir e regressar.

abril 15, 2012

Rodolfo gardunha

Fizemo-nos à estrada, o nosso caminho era o mesmo avançavamos rumo a um destino acordado, cada com os seus passos no estreito carreiro, chilreavam os pardais nas àrvores verdejantes pulavam da galho para galho cortejando as passarinhas aromas das flores, da seiva, dos polenes estimulavam as glandulas olfativas e a referencia cerebral às quais correspondia cada odor o dia era lindo, luz calorosa mas refrescante entre a sombra árvores de folhas caducas,carvalho, faia, castanheiros à vista surgia uma ponte de madeira, por baixo passava um riacho com pedras de granito, e a àgua tão limpida e lisa... apetecivel nada mais divino que aquele momento as botas poeirentas, as pernas cansadas tinhamos passado a manhã a desbravar montes e vales absorvidos pela cadencia dos passos pés doridos e o rabo sentado na rocha de granito com uma almofada de musgo verde, o que podia fazer alguém mais feliz o resto do mundo passava e sorriam, mas sem parar ah! mas nós não tinhamos pressa agora recordo isso como um ensinamento, na vida a pressa adormece a atenção e os pormenores despercebem-nos dos momentos deliciosos, que preenchem a alma é bom parar e olhar, sentir na pele a àgua a luz e toda a matéria organica e ver como existe um entendimento de comunhão com o universo é quando explode de nós um raio que atravessa o universo e leva as nossas emoçoes a voar, espalhando as nossas particulas de amor pelas galaxias mais longinquas de regresso ao interior ao lugar de onde partimos essa energia quem sabe se é a substancia essencial de todas as questoes primordiais e nada mais é necessário perguntar ou responder é agora que se calçam as botas que nos vão proteger da peregrinaçao de regresso.

abril 14, 2012

o ar gela a pele das suas maos abraça a escuridão, fechando as palpebras e inspira profundamente o som da chuva que se ouve là fora onde as aves se tentam abrigar apressadamente com a chegada do anoitecer os seus musculos faciais reagem ao sopro do vento ah, que saudade, sentir o temporal a musica das chuvadas, que lembra a infancia o chapinhar das galochas nas poças de àgua o regresso aconchegante do menino que chegara da escola onde deixou o cheiro dos livros e dos làpis e o desinteresse da mestra sàbia ah avô essa lareira quente e doce essa broa para roer... o rapaz teve um flash back, serà que deveria voltar ao momento? ao passado, onde depois tu, avô te perdeste? o que aconteceu? perdeste-te no escuro da lareira; dissolveste-te nas labaredas de fogo? Na mesa ficaram a broa e a laranja, mas o canivete levado pelas chamas do esquecimento ha que tudo morre, que tudo se apaga na lembrança do tempo, das horas que passam dos dias que recordam a beleza triste que existe nos dias de chuva o fogo enternecedor da lareira, um abraço reconfortante, o toque das mãos fortes de alguem que brilha para nós, um pai que nao é pai mas age como se o fosse na ausência emocional do verdadeiro progenitor talvez nao tenha dado o seu amor durante a sua vida a mais alguém; talvez o tenha guardado para o dar no fim...

abril 13, 2012

. O LIVRO DO DESASSOSSEGO (excerto) Fluido, o abandono do dia finda entre púrpuras exaustas. Ninguém me dirá quem eu sou, nem saberá quem eu fui. Desci da montanha ignorada ao vale que ignoraria, e meus passos foram, na tarde lenta, vestígios deixados nas clareiras da floresta. Todos quantos amei me esqueceram na sombra. Ninguém soube do último barco. No correio não havia notícia da carta que ninguém haveria de escrever. Tudo, porém, era falso. Não contaram histórias que outros houvessem contado, nem se sabe ao certo do que partiu outrora, na esperança do embarque falso, filho da bruma futura e da indecisão por vir. Tenho nome entre os que tardam, e esse nome é sombra como tudo.Sei que despertei e que ainda durmo. O meu corpo antigo, moído de eu viver diz-me que é cedo ainda… Sinto-me febril de longe. Peso-me, não sei porquê… Num torpor lúcido, pesadamente incorpóreo, estagno, entre o sono e a vigília, num sonho que é uma sombra de sonhar. Minha atenção bóia entre dois mundos e vê cegamente a profundeza de um mar e a profundeza de um céu; e estas profundezas interpenetram-se, misturam-se, e eu não sei onde estou nem o que sonho. Um vento de sombras sopra cinzas de propósitos mortos sobre o que eu sou de desperto. Caio de um firmamento desconhecido um orvalho morno de tédio. Uma grande angústia inerte manuseia-me a alma por dentro e, incerta, altera-me, como a brisa aos perfis das copas. Na alcova mórbida e morna a antemanhã de lá fora é apenas um hálito de penumbra. Sou todo confusão quieta… para que há-de um dia raiar?... Custa-me o saber que ele raiará, como se fosse um esforço meu que houvesse de o fazer aparecer. Com uma lentidão confusa acalmo. Entorpeço-me. Bóio no ar, entre velar e dormir, e uma outra espécie de realidade surge, e eu em meio dela, não sei de que onde que não é este…

abril 10, 2012

मु doce

quando o teu beijo doce tocava a minha pele
e o teu olhar brilhava, iluminava o meu
quando as tuas maos se abraçavam nas minhas
e o nosso calor enternecia os nossos coraçoes, eu sentia-me feliz
ah... e quando os nossos corpos se abraçavam
a minha alma era completa entrelaçava-se na tua
e via-se preenchida, eramos felizes na simplicidade de amar
e sentia-me pequenino quando o teu amor era por mim tao grande
que nao sabia como fazer... ficava em admiraçao, como se nao pudesse crer ser assim tao amado. vivo na gratidao do amor que me deste, e vivo triste pela perda do nosso amor... algo me sussurra um pouco de fé, algo me sussurra a aceitaçao para que aceite que o nosso amor nao tem mais forma de viver. e lamento tanta dor, tanta falta... o meu coraçao nao sabe dizer-me até quando estará de luto ou até quando manterá a esperança, mas sabe dizer-me tudo o resto e que em toda a sua dimensao tu continuas a ocupar uma boa parte do seu sentir.
Finjo-te sentir nos meus braços, finjo-te dormir no meu peito, so nao finjo a saudade que me doi nao ser verdade o teu corpo fisico abraçado no meu.

abril 09, 2012

AMO-TE

AMO-TE
O meu corpo doi, doi com a ausencia do teu
em dor sinto no coraçao, meu amor nós tao distantes
em sofrimento e solidao
Serà que ja nao há soluçao? serà mesmo verdade este pesadelo
e devemos fugir do amor que sentimos
eu sei, eu fugi, eu nao vi, e perdi
tive de perder para ver que fomos dois, que podiamos ser sempre um só
porque o amor é enfrentar-mos juntos os maus momentos é lutar e compreender.
é tanto mais, ah eu devia saber amor o valor de tudo o que nos uniu o corpo e a alma, eu devia ter me lembrado de tudo o que importava e ter feito mais, porque o meu amor foi amor sem fim, e ainda nao acabou, ainda està aqui...
E eu sei que te perdi.

saudade meu doce

Eu queria voltar ao calor dos teus braços doces
respirar a cor dos teus labios
o perfume dos teus cabelos, meu amor
ser brilho nos teus olhos ser o homem
que desejas, eu queria olhar te e sentir me
teu
Sentir me honrado pelo mel da tua alma
a saudade tortura me e eu entendo que nao é ego
esta tortura
é na verdade perceber que o meu amor é puro
e a saudade que sinto por nao ter entendido que isso bastaria
para superar os problemas que pareciam o fim e foram
mas eu ceguei e agora eu morri
porque se nao for Deus e a sua piedade pelos erros dos homens
eu posso ter perdido para sempre o meu Amor que habitava no teu coraçao
peço a Deus que tudo passe por aprender e que seja um ensinamento da vida
mas peço do fundo do meu coraçao que um dia nos possamos pertencer na força do coraçao com toda a alma e corpo das profundezas do nosso ser.