
No primeiro dos núcleos, deuses associados a montanhas ou bosques surgem ao lado de entidades abstractas ligadas a comunidades humanas, do culto de Endovélico, uma das divindades mais populares da província, ou de inscrições rupestres redigidas em lusitano, num rol de oferendas ilustrativo do esquema tripartido da divisão de divindades utilizada pelos diversos povos indo-europeus.
"Há três níveis distintos: os deuses principais, ditos de primeira função, em que se inscreve Reva, por exemplo, ao qual eram sacrificados touros de cobrição; os deuses guerreiros, os da força e da heroicidade, e os 'numina' tutelares, divindades locais, com um culto geralmente muito circunscrito, à excepção de Endovélico".
No módulo "Roma Eterna", o acervo exposto passa pelo culto imperial, nas suas dimensões pessoal, sacerdotal e comunitária; pela tríade capitolina (Júpiter, Juno e Minerva); por Marte e Vitória, os guerreiros; por Vénus, antepassada mística de César, o divino; por Apolo e Esculápio, os deuses da saúde; por Fortuna, senhora do destino; ou por Ísis, Cibel e Mitra, divindades objecto de culto no Egipto, Ásia Menor e Pérsia.
"Estamos perante um território em que tudo se mistura e confunde. Um território em que existe um plano emocional muito forte que escapa à racionalidade. Podemos abordar este universo de uma forma quase positivista, objectiva, mas perderemos muito ao ignorar a sua vertente mais afectiva. O que se torna evidente nestas oferendas, nestas placas tumulares ou nestas inscrições votivas é a intimidade de alguém, o quotidiano de uma comunidade".
Garantindo que esta exposição estabelece a ponte entre uma religiosidade que julgamos distante e a realidade contemporânea, José Cardim Ribeiro acrescenta: "Para aquelas populações, o Endovélico não era um problema histórico, mas vivencial. Tal como o são outras das divindades que hoje se veneram pelo mundo fora. Por mais que façamos, o homem na sua relação com o sagrado não mudou".
Na mesma lápide que dedicou a Bormanicus em agradecimento de um favor concedido, Caius Pompeius Meidugenus rogou também ao salutífero deus que impedisse as crianças de danificarem aquele seu voto de gratidão, para que ele permanecesse para a eternidade. A divindade parece ter levado em conta o pedido, permitindo que o monumento votivo se juntasse agora a mais de três centenas de outras peças entre aras, estátuas, mosaicos, oratórios, sarcófagos e altares , todas elas duas vezes milenares e igualmente consagradas aos deuses cultuados no actual território português até à fixação do cristianismo, no século IV.
Há cem anos a pesquisa arqueológica não conseguiu identificar mais do que um milhar de peças sobre o culto das divindades no território português que pertenceu à Lusitânia, actualmente o número de exemplares já ultrapassa os cinco mil. Para José Cardim Ribeiro, epigrafista e comissário científico desta exposição, «este facto surge aliado à conjugação de novos instrumentos teóricos de que Leite de Vasconcelos não dispunha, como o desenvolvimento dos estudos de filologia, e que agora permitem não apenas uma releitura do que anteriormente fora estudado como também uma nova interpretação dos materiais entretanto encontrados». Cardim Ribeiro sustenta: «Há que continuar a aprofundar as investigações arqueológicas nos contextos dos santuários já conhecidos, estudar rituais da Grécia Antiga e do Norte de África, como também os cultos dos Pirenéus e as divindades da Gália, de cujos povos o território da Lusitânia recebeu influências». Para que os resultados sejam «mais eficazes», defende a necessidade de alargar as componentes científicas da investigação a outras áreas do conhecimento como a antropologia, a historiografia mitológica e a linguística, «que permitirá o estudo comparativo entre as lápides escritas em linguagem verbal e o latim vernáculo».
Os arqueólogos não precisam apenas de provas materiais. De contrário nunca se conseguiria identificar a razão pela qual, no século II, Caius Pompeius Meidugenus dedicara uma lápide a Bormanicus, nas Caldas de Vizela, em Guimarães. Mas sabendo-se que o teónimo do deus invocado significa águas quentes, então percebe-se que a sacralização das qualidades da substância resultou na identificação de uma divindade. Por isso, aquele cidadão da tribo Galéria desejou perpetuar a sua gratidão, depois de ter obtido uma cura termal para si ou para um familiar (a inscrição não o indica). É por monumentos como este que se inicia a viagem pela exposição das «Religiões da Lusitânia». São dedicações a deuses, cuja génese deriva da surpresa provocada pelos «grandes espectáculos naturais» que, como escreveu Leite de Vasconcelos, tanto podem estar associados ao «aspecto majestoso e solitário» dos montes, ao «marulho sempre suave das fontes» ou ainda à presença de «árvores seculares e gigantescas» de um bosque. Por isso é que, junto a uma ara dedicada a Laraucus, a divindade da Serra do Larouco, pode surgir uma outra, mandada fazer por uma mulher, Antonia Rufina, dedicada a uma ninfa, designada por Lupianae.
Baseado no texto de Mário Robalo
Fotografias de António Pedro Ferreira