fevereiro 06, 2007

«Salsugem»


deitei a cabeça em cima da fotografia
e com a respiração despertei teu corpo
do sítio penumbroso onde viveras
o tempo não se gastou
passei estes anos a colocar as coisas
nos seus devidos lugares
ainda ouço
a voz outonal das palmeiras e o murmúrio
do vento cercando a casa protegida pelo bolor
era uma pequena ilha dizias
onde os ruídos duma vida anterior a esta
dormitavam ainda

agora está tudo arrumado
agito-me em volta das coisas
mas nada posso corrigir
o que está feito está feito

levanto-me daqui e corro para o telefone
tento saber se estás onde penso existir
uma cidade... ninguém responde

onde estarás?
deste ou do outro lado do telefone?
um puto irrompe da insónia
deitando-me a língua de fora

de qualquer maneira não consegui a ligação
pernoitas em mim
e se por acaso te toco a memória...amas
ou finges morrer

pressinto o aroma luminoso dos fogos
escuto o rumor da terra molhada
a fala queimada das estrelas

é noite ainda
o corpo ausente instala-se vagarosamente
envelheço com a nómada solidão das aves

já não possuo a brancura oculta das palavras
e nenhum lume irrompe para beberes


de «Salsugem», 1978/83: Rumor dos Fogos, 1983

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